A Folha de Rosto
(ou rosto, frontispício, portada, página de rosto)


Dorothée de Bruchard





Disse Stanley Morison que a história da impressão é em boa parte a história da folha de rosto.

As primeiras páginas de rosto completas — onde constam título, nome do autor, ano da edição, dados do impressor — datam da segunda metade do século XVI.

A antigüidade dava pouca importância ao título ou nome do autor e, mesmo nas belíssimas páginas iniciais decoradas que os celtas introduziram nos códices medievais a partir do no século VII, constava apenas a tradicional fórmula incipit liber — aqui inicia o livro — imediatamente seguida do texto.

Detalhe da página inicial do Evangelho de Lucas
Evangeliário de Lindisfarne
O incipit está no alto, à esquerda.

Esta tradição continuou com os primeiros incunábulos:

Detalhe da página inicial das
Orations, de Cícero
na edição de Sweynheym e Pannartz, 1465.

Com o desenvolvimento da impressão, aumento das tiragens e distribuição, alguns impressores, para evitar a sujeira na primeira página (lembremos que os livros não possuíam capa e as encadernações eram encomendadas pelo comprador), passaram a imprimir o início do livro no verso da primeira página, deixando o reto em branco. Daí foi um passo imprimirem ali o título da obra, mais tarde acrescentando uma ilustração, geralmente a marca do editor, o que já dava então um caráter publicitário à página. Aos poucos, sob esta ilustração, foram sendo indicados o local e data da edição, o endereço do livreiro (todos estes dados eram antes colocados ao final do volume, no colofon, que foi perdendo importância).
Os impressores tendiam a preencher a página de rosto toda, com títulos apresentados numa extensa fórmula, acrescentando ainda muitas vezes indicações das partes da obra ou dados biográficos do autor.

Rosto da edição de The World Encompassed, diário da circunavegação de Francis Drake (1628).


Por outro lado, preocupados com a apresentaçãoda da página, passaram a orná-la cada vez mais, acompanhando os estilos artísticos vigentes.

O rosto, ainda incompleto, desta edição espanhola (1508) para o Amadis de Gaula apresenta estilo gótico, tanto na tipografia como no enquadramento com motivos naturalistas e representação de cenas e paisagens do cotidiano.

Os motivos naturalistas reaparecem no rosto das Illustrations de Gaulle et singularités de Troie, de Lemaire des Belges, publicado na França em 1511, mas já com características humanista da escola de Florença.

Os humanistas de Veneza, Verona, em busca das raízes clássicas, adotaram um estilo de forte influência romana. Os motivos de predileção eram elementos arquitetônicos, medalhões, vasos, estandartes e escudos, inspirados nos monumentos erguidos pelos antigos romanos aos seus heróis.

Ao lado, rosto de uma tradução de Vitruvius, editada pelo veneziano Daniele Barbaro em 1556. Esta obra sobre arquitetura foi ilustrada por Palladio.


Observe o estilo neste rosto da edição de 1588 dos Essais de Montaigne e na credência francesa estilo Henrique II.


O material tipográfico se espalhava pela Europa tanto quantos os livros, e as cópias de uma edição para outra, às vezes bastante inapropriadas, eram freqüentes. A moldura desta edição mexicana de Juan Pablos para a Dialética de Aristóteles (1554) é uma cópia, exceção feita do brasão real, daquela usada por Whitchurch em 1549 para The Book of Common Prayer.

A portada da edição d'Os Lusíadas, publicada em Portugal em 1572, foi usada em inúmeras edições em vários países.



Alguns impressores humanistas, como Manuce, não seguiram a paixão pelos enquadramentos e deram a suas edições uma aparência mais despojada, a folha de rosto assumindo então, no século XVI, o aspecto que conhecemos hoje. Seguiriam existindo, contudo, folhas de rosto bastante elaboradas, ora com aspecto mais tipográfico, ora mais ornamentado. O final do século XVI traria uma grande transformação: a gravura em madeira foi sendo substituída pela gravura em cobre, e a página de rosto ornamentada ficando exclusivamente a cargo dos artistas, os quais evidentemente privilegiavam a ilustração em detrimento do texto. Muitas vezes, o rosto, então chamado de frontispício, era tomado pela ilustração, os dados da edição constando num rosto tipográfico que vinha na página seguinte.

Fronstispício de L'Art de Plaire, de Vaumorière, ilustrado por Thomassin (1688). O rosto da primeira edição do Discours de la Méthode, de Descartes, em 1637, não traz o nome do autor.

Durante o período clássico, estavam constantemente presentes nos frontispícios, e mesmo nos rostos tipográficos, os florões e medalhões dos exemplos acima, bem ao gosto do rococó e barroco, também encontrados no mobiliário e artes ornamentais da época. A ilustração do livro muitas vezes resumia-se à da folha de rosto, que procurava então sintetizar todo o espírito da obra, não raro de forma alegórica. Estamos bem longe das gravuras passe-partout do início do livro impresso: a ilustração do rosto agora personaliza o volume.

No século XIX, os grandes avanços trazidos pela Revolução industrial trouxeram mudanças à atividade editorial. Houve muitos experimentos na área da tipografia, entre outras, gerando o aparecimento de uma profusão de tipos novos, alguns bem fantasiosos, e muitas composições apresentavam combinações entre eles, de gosto às vezes duvidoso. Com o advento de novas técnicas a ilustração adquire novo vigor, e nesta época de contínuas edições de romances e poesia, cada vez mais os ilustradores se associam aos autores na apresentação diferenciada de uma obra. Houve, por outro lado, uma forte reação "pró-tipografia" por parte de autores como Flaubert, ou Mallarmé, que defendiam a beleza do tipo e da coisa escrita por si próprios.

Abaixo, à esquerda, fronstispício ilustrado por Colin no estilo goticizante do romantismo, medievalista, para a edição (1824) dos poemas de "Clotilde de Surville" (pretensa poeta do séc. XV — aparentemente uma farsa do editor).

Folha de rosto de Les Métamorphoses du Jour de Grandville, ilustrada pelo próprio autor. (1829)

Folha de rosto para uma edição de The Early Paradise, pela Kelmscott Press, de William Morris, que acabou não acontecendo, ilustra o estilo do movimento Arts & Crafts, na Inglaterra. O desenho é de Edward Burne-Jones. (1866)

O século XX trouxe para a apresentação gráfica do livro, entre tantas outras novidades, o uso da cor, amplamente usada principalmente para a capa. Esta, com o advento das brochuras no século anterior, passou a concentrar os esforços dos projetistas, enquanto parte mais destinada a chamar a atenção imediata de um possível leitor.

Rosto da edição de Les Vrilles de la Vigne, de Colette (1923), por J. Ferenczi & Fils, Paris, com xilogravura de Clément Serveau.

Rosto da edição de A Tale of Two Cities, de Dickens (1930), numa edição popular da The Macmillan Company.


Atualmente, em edições comerciais, a folha de rosto tem se apresentado bastante despojada, quase sempre a uma cor (usada abundantemente na capa e evitada no miolo por questões orçamentárias), tipográfica — incluindo letras e outros ítens tipográficos, como linhas ou vinhetas — às vezes acompanhada de uma ilustração.
Merece, contudo, o maior cuidado ao ser composta. Com sua tradição na concepção gráfica de um volume, ainda é a página que o apresenta ao leitor, e sempre se pode, com poucos recursos, criar bonitas folhas de rosto, harmônicas e em harmonia com o livro enquanto todo.

Rosto da edição de Tirant Lo Blanc, de Joanot Martorell, pela Editora Giordano (1998). Constam o nome do autor, título, nome do tradutor e autor do prólogo, e a marca da editora.
Para as edições da Paraula, cujas capas são muito simples, a duas cores, sempre optei por reproduzi-las na folha de rosto, com pequena modificação que permitisse acrescentar o nome do tradutor — o que não foi o caso nesta edição(1994) da novela Casa Velha, de Machado de Assis. O orçamento permitiu o uso de uma segunda cor para este rosto, que ficou então idêntico à capa, exceto pelo papel: lá, vergê, aqui, pólen.


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© Dorothée de Bruchard, 1999
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